Capitães da Areia, a maioridade penal e a criação atual

Oi, pessoal!!

Essa semana eu terminei de ler o livro Capitães da Areia, do Jorge Amado, e me senti profundamente revoltada, maravilhada, humanizada. Mas antes de explicar, quero contextualizar um pouco da história para vocês.

Quando Jorge Amado publicou Capitães da Areia?

Em 1937, e eu gostaria que você prestasse atenção nessa data.

Quem são os Capitães da Areia?

Um grupo de cerca de 100 meninos, de seis a dezesseis anos, abandonados pela família, e que usavam o furto como meio de conseguir dinheiro, comida e roupa para sobreviver.

Ainda, é importante dizer que o grupo é formado por pessoas de várias cores de pele e cabelo, e até por filhos de estrangeiros. Isso significa que a criminalidade não é uma característica de preto, de mulato, mas também de branco loiro, de estrangeiro. A criminalidade é produto do ambiente e do abandono.


Agora, convido vocês a ler o trecho que mostra o que Pedro Bala, chefe dos Capitães da Areia, pensa ao ver o Gato, um dos garotos do grupo, se despedindo dos demais e indo embora para Ilhéus (BA):

“Não seriam meninos toda vida… Bem sabia que eles nunca tinham parecido crianças. Desde pequenos, na arriscada vida da rua, os Capitães da Areia eram como homens, eram iguais a homens. Toda a diferença estava no tamanho.

No mais eram iguais: amavam e derrubavam negras no areal desde cedo, furtavam para viver como os ladrões da cidade. Quando eram presos apanhavam surras como homens. Por vezes assaltavam de armas na mão como os mais temidos bandidos da Bahia.

Não tinham conversas de meninos, conversavam como homens. Sentiam mesmo como homens. Quando outras crianças só se preocupavam com brincar, estudar livros para aprender a ler, eles se viam envolvidos em acontecimentos que só os homens sabiam resolver.

Sempre tinham sido como homens, na sua vida de miséria e aventura, nunca tinham sido perfeitamente crianças. Porque o que faz a criança é o ambiente de casa, pai, mãe, nenhuma responsabilidade. Nunca eles tiveram pai e mãe na vida da rua.E tiveram sempre que cuidar de si mesmos, foram sempre os responsáveis por si. Tinham sido sempre iguais a homens”.

– Capítulo: Na rabada de um trem, p. 235-236.


Bom, mas porque eu fiquei revoltada, maravilhada e humanizada???

Fiquei maravilhada com a força e a alegria que esses meninos conseguiam sentir algumas vezes, mesmo com toda a miséria que os cercava, porque a vida sempre tem um lado bom, basta admitir e apreciar.

Humanizada, porque faz bem à alma observar a realidade. Sentir-se parte do problema. Ver como é a experiência de quem sofre, e crescer ao se colocar no lugar do outro.

Mas fiquei mesmo é revoltada. Revoltada porque a postura dos órgãos públicos e da imprensa, e os pontos de vista sobre o menor abandonado, da classe média e rica de 1937 é praticamente a mesma de atualmente. A população brasileira, em sua grande parte, continua pensando que “o crime é uma prática dos pobres” e que “o jeito é colocar esses pivetes na cadeia”.

Assusta ver que o Brasil não mudou quase nada a forma como enxerga o menor abandonado. Já a situação da criança pobre, essa sim piorou muito, pois agora a droga mora ao seu lado desde muito cedo. A droga está na porta das suas escolas, os traficantes são os poucos que lhes dão atenção ou um propósito de vida e, pior ainda, traficantes são seus avós, pais, irmãos, vizinhos e amigos de infância.

Fico revoltada, porque a estrutura familiar piorou com os anos. Hoje o abandono dos filhos, por parte do pai e da mãe, não é realidade só dos pobres e é, por isso, que crianças e adolescentes de classe alta e média têm se envolvido cada vez mais com a criminalidade e as drogas.

Os pais de hoje?

Grande parte deles teme seus filhos. São pais que fogem deles para fuçar na internet e nas redes sociais. Não têm tempo para brincar com suas crianças, conferir as tarefas, e checar o que vêem na internet.

Pais que culpam o trabalho e a falta de tempo, mas que depois recorrem à televisão para divulgar os pedófilos que abusaram de suas crianças, o sequestro de seus filhos, o seu sumiço, ou a droga na porta da escola.

Pais que se drogam na frente dos filhos. Pais que dizem que, no futuro, seu pequeno será um grande traficante que fará a justiça dos pobres com as próprias mãos.

Pais que agem como se os filhos compreendessem tudo como os adultos compreendem. Que acham que a cabeça da criança está preparada para ver atores transando na TV ou até mesmo vê-los transando na sala ao lado, e entender que isso é “atividade só para adultos”.

Pais que são pais por acidente, porque amam demais os prazeres do sexo e não estão nem aí com a principal consequência dele: um ser vivo.

Pais que confundem amizade com deixar a criança bem livre. Pais que, fragilizados e carentes, querem ser os bebês de seus filhos. Pais que querem curtir a vida sem ver que seus filhos curtem também, adoidados.

Pais que se preocupam demais com o trabalho, com os prazos, com a cobrança, com as demissões, com o salário, com a poupança, com o investimento. Pais que esquecem do equilíbrio que precisam buscar ter na vida. Pais que, na falta de dinheiro, querem pôr seus filhos na rua.

Pais que só se preocupam com a roupa da moda e o carro do momento. Com a festa babado-do-ano que ele tem que ir. Com reservar um jatinho para a viagem para Paris. Com o apartamento de Londres. Com o lucro da empresa. Com oferecer aos filhos o carinho material.

Os filhos??? Pobres filhos. Jogados para serem criados pela vida, que pode ser tão agressora e indiferente. Rico? Pobre? Pobres de afeto, de discernimento, de conselho, de broncas, de família.

A solução?

– “Ah, a solução quem tem que dar é a educação na escola”.

– “A culpa é do governo!”.

– “A solução é reduzir a maioridade penal!”.

Tem certeza disso, gente??

Pois eu. Eu sou a favor de destruírem a ilusão. Criar é lindo, mas tem o lado difícil que geralmente é ignorado. Criar sempre foi muito mais do que gerar um ser vivo para chamar de seu.

Criar é, frequentemente, transmitir energia e palavras que você não tem no momento ou nunca teve. Ser carinhoso com o filho quando o companheiro ou a companheira te trai ou briga com você. É privar as crianças de verem seus pais brigando. É ser um incentivador, ainda que você tenha sido demitido. Dar bronca no seu filho mesmo quando isso te lembrar do seu pai que te espancava e da sua mãe que deixava. Criar é, muitas vezes, fornecer o que não se tem no momento.

Não é todo homem ou mulher que tem perfil para criar, porque não são todos que conseguem se doar pelo outro. Por esse motivo que sou a favor de que nem todo casal produza filhos.

E, para aqueles que cobram da mulher uma família, defendo que o papel social da mulher não é o de ser mãe, mas o de ser quem ela quiser.

Recomendo que os futuros pais pensem muito. Ter filhos porque é “o progresso natural do casamento”? Ter filhos para passar seus genes adiante? Para deixar heranças? Acho uma visão de um egoísmo tremendo!

Tenha filhos se for por amor. Por vontade de cuidar. Por certeza de que você pode repensar qualquer economia, trabalho ou relacionamento, mas JAMAIS sobre a permanência do seu filho na sua vida.

Para famílias já numerosas e sem renda suficiente para oferecer o básico às crianças, sou a favor mesmo é da obrigatoriedade da laqueadura ou da vasectomia. Não tem camisinha gratuita que salve quem ainda acha que sexo com ela é igual chupar bala com papel, ou quem não tem o menor interesse em métodos anticoncepcionais.

Tem certeza, gente, que a culpa e do governo e que as penitenciárias regenerarão as crianças melhor do que o carinho familiar??

O mínimo que você pode fazer é cuidar bem dos seus filhos.

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